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Artigos

 

Egmont CapucciDedicado há 41 anos à Geologia; especializado em Hidrogeologia pela Universidade Politécnica de Barcelona (Espanha).
   

 

Potencialidades dos Aquíferos no Estado do Rio de Janeiro

Egmont Capucci (*))

Apesar de o Estado do Rio de Janeiro possuir 80% de seu território recoberto por rochas cristalinas, consideradas de baixa produção aquífera, bem como possuir em suas bacias sedimentares espessos horizontes argilosos, poços tubulares construídos em bases tecnicamente consistentes no interior do estado têm revelado resultados surpreendentes, tanto do ponto de vista quantitativo quanto qualitativo.

Com efeito, se considerarmos que o Rio Paraíba do Sul recarrega em seu médio curso o cristalino através de uma estrutura tectônica favorável à captação de água subterrânea em grande volume (gráben do Rio Paraíba do Sul), poços bem locados e construídos nesta região produzirão resultados promissores em ambas margens.

Considerando ainda que seu médio curso, com cerca de 200km de extensão, possui cidades industriais susceptíveis a severos acidentes ambientais, a água subterrânea assume nesta região uma relevante importância estratégica, justificando plenamente estudos que visem ao melhor aproveitamento deste aquífero.

Assim, citando-se recentes exemplos, poços perfurados com apoio técnico para os municípios de Carmo, Três Rios e Barra Mansa produziram vazões operacionais superiores a 20m³/h, bem como poços construídos para reforço de indústria de água mineral em Três Rios, revelaram pioneiramente neste aquífero água de excelente qualidade, litinada, com Sólidos Totais Dissolvidos (STD) inferiores a 100 ppm (parte por milhão).

Estes resultados foram, pioneiramente, obtidos através de estudos bem elaborados, analisando e isolando águas de pior qualidade existentes nas fraturas mais superficiais, através de obturadores pneumáticos, abrindo alternativas para solução ou redução da ocorrência de água ferruginosa subterrânea ao longo do curso do Rio Paraíba do Sul.

Por outro lado, um poço construído para a Light, na Ilha dos Pombos, com 96m de profundidade, próximo à cidade de Além Paraíba, produziu inédita vazão surgente de 40 m³/h, com água levemente ferruginosa. Resta lembrar que, geralmente, a construção de poços neste aquífero não exige aplicação de seções filtrantes, facilitando os serviços de perfuração, manutenção e aumento de sua vida útil.

Portanto, abre-se a baixos custos, um leque de perspectivas ao reforço de abastecimento de cidades ou vilas situadas em terrenos cristalinos com base no recurso hídrico subterrâneo no Estado do Rio.

Referente aos aquíferos costeiros da bacia de Campos, localidades importantes como a Região Metropolitana de Campos dos Goytacazes, Farol de São Tomé, Praia do Açu, Cajueiro, Barcelos, Grussaí, Atafona e todo o município de São Francisco do Itabapoana são abastecidos por poços operados pela Concessionárias Águas do Paraíba e pela Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae), com profundidades de 150 a 250m, captando água de formações terciárias, com vazões de 40 a 220 m³/h, e teores de cloretos de 20 a 100 ppm, necessitando apenas de cloração preventiva, resultados considerados surpreendentes para aquíferos costeiros.

No tocante a porção média da bacia, os melhores resultados ocorrem na faixa litorânea, em função da grande espessura aquífera, aferida com mais de 200 metros, com extensão de 45km, observada desde a cidade de Farol de São Tomé até a cidade de Atafona, permitindo, no futuro, garantia de água em volumes suficientes para projetos de indústrias que necessitem se estabelecer em paralelo ao desenvolvimento da indústria petroleira da Bacia de Campos, como o Porto do Açu, desde que sua explotação esteja embasada por estudos consistentes.

Quanto aos resultados obtidos na formação sedimentar do entorno da Baía de Guanabara, ocorrendo desde a cidade de Itaboraí até Duque de Caxias, apesar do custo construtivo dos poços ser pequeno, com profundidades de até 120 metros, suas perspectivas de vazão não permitem atendimentos domésticos extensivos, devido às altas concentrações demográficas existentes e a baixa permeabilidade aquífera, (vazões específicas da ordem de 0,5m³/h/m).

Assim, a combinação destes dois fatores impedem sua maior exploração, sendo apenas utilizado para suprimento de condomínios e indústrias. Suas águas possuem baixos teores de STD e ferro.

No entanto, a par de todas estas boas notícias, nossos poços padecem dos males crônicos que afetam as águas subterrâneas em todo o país, pois a maioria deles é mal construída e mal operada, onde é comum se constatar a inexistência de qualquer instrumento operacional, sendo assim instalados com "barriletes cegos", ou seja, não se vê ao menos um tubo para medir níveis de água, ou injetar desinfectantes para sua limpeza com a própria bomba; e neste aspecto estamos falando também dos grandes usuários.

 

(*) Egmont Capucci – Dedicado há 41 anos à Geologia; especializado em Hidrogeologia pela Universidade Politécnica de Barcelona (Espanha); autor de vários trabalhos técnicos apresentados em seminários e fóruns; co-autor de publicações técnicas; palestrante; Membro-Titular da ABAS – entidade nacional; Membro do Conselho Deliberativo da ABAS – Núcleo RJ; registro no Crea-RJ 19525-D; e-mail: egmoncapucci@globo.com
 
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Recursos hídricos no futuro: problemas e soluções

 

José Galizia Tundisi (*)

 

 

A crise atual da água tem muitos componentes de origem social, econômica e ambiental: usos excessivos da água, aumento de demanda, gerenciamento setorial e muito focado em quantidade. Contaminação da água, eutrofização e alterações no ciclo hidrológico em razão das mudanças globais são outros componentes. Para resolver esse conjunto de problemas e avançar estratégias de planejamento e gestão em longo prazo, os seguintes programas e abordagens são alguns mecanismos relevantes: a) Uma abordagem da bacia hidrográfica integrando gestão, planejamento e pesquisa científica; b) Um sistema avançado de governança dessas bacias hidrográficas com a participação de usuários, setor público e setor privado; c) Estudos estratégicos sobre água e economia, água em áreas metropolitanas, água e energia; d) Uma estrutura para cooperação internacional em bacias internacionais compartilhadas; e) Uma avaliação econômica dos serviços dos recursos hídricos (águas superficiais e subterrâneas, rios, lagos e represas); f) Programas de capacitação de gerentes com uma abordagem integrada, preditiva, técnica e tecnológica.
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As causas principais
da “crise” da água

Segundo alguns especialistas, a crise da água no século XXI é muito mais de gerenciamento do que uma crise real de escassez e estresse (Rogers et al., 2006). Entretanto, para outros especialistas, é resultado de um conjunto de problemas ambientais agravados com outros problemas relacionados à economia e ao desenvolvimento social (Gleick, 2000). Para Somlyody & Varis (2006), o agravamento e a complexidade da crise da água decorrem de problemas reais de disponibilidade e aumento da demanda, e de um processo de gestão ainda setorial e de resposta a crises e problemas sem atitude preditiva e abordagem sistêmica. Tundisi & Matsumura-Tundisi (2008) acentuam a necessidade de uma abordagem sistêmica, integrada e preditiva na gestão das águas com uma descentralização para a bacia hidrográfica. Segundo esses autores, uma base de dados consolidada e transformada em instrumento de gestão pode ser uma das formas mais eficazes de enfrentar o problema de escassez de água, estresse de água e deterioração da qualidade.
Tundisi et al. (2008) destacam que, no amplo contexto social, econômico e ambiental do século XXI, os seguintes principais problemas e processos são as causas principais da “crise da água”:
• Intensa urbanização, aumentando a demanda pela água, ampliando a descarga de recursos hídricos contaminados e com grandes demandas de água para abastecimento e desenvolvimento econômico e social (Tucci, 2008).
• Estresse e escassez de água em muitas regiões do planeta em razão das alterações na disponibilidade e aumento de demanda.
• Infraestrutura pobre e em estado crítico, em muitas áreas urbanas com até 30% de perdas na rede após o tratamento das águas.
• Problemas de estresse e escassez em razão de mudanças globais com eventos hidrológicos extremos aumentando a vulnerabilidade da população humana e comprometendo a segurança alimentar (chuvas intensas e período intensos de seca).
• Problemas na falta de articulação e falta de ações consistentes na governabilidade de recursos hídricos e na sustentabilidade ambiental.
Esse conjunto de problemas apresenta dimensões em âmbito local, regional, continental e planetário. Esses problemas contribuem para:
• Aumento e exacerbação das fontes de contaminação.
• A alteração das fontes de recursos hídricos – mananciais – com escassez e diminuição da disponibilidade.
• Aumento da vulnerabilidade da população humana em razão de contaminação e dificuldade de acesso à água de boa qualidade (potável e tratada).
• Esse conjunto de problemas está relacionado à qualidade e quantidade da água, e, em respostas a essas causas, há interferências na saúde humana e saúde pública, com deterioração da qualidade de vida e do desenvolvimento econômico e social.

A posição central dos recursos hídricos quanto à geração de energia, produção de alimentos, sustentabilidade da biodiversidade e a mudanças globais é destacada na Figura 1, e a Figura 2 apresenta as principais inter-relações dos processos que afetam qualidade e quantidade de água, a biota aquática e a população humana.

Metodologias e propostas
para solução e prioridades

Tendo em vista essa situação, quais são as abordagens, o programa e os projetos que podem promover uma profunda alteração na gestão das águas e no preparo e aplicação de soluções criativas e de custo adequado?
Inicialmente, deve-se cogitar que uma avaliação econômica dos “serviços” dos recursos hídricos e dos ecossistemas aquáticos deve ser considerada como uma base importante da metodologia e das ações futuras. Esses “serviços” e sua valoração serão a base para uma governabilidade adequada dos recursos hídricos. Serviços como regulação dos ciclos, controle do clima, abastecimento de água, produção de energia e alimentos devem ser a base para uma nova abordagem na gestão e governança dos recursos hídricos (Mea, 2003). Capacidade de monitoramento avançado com a elaboração de banco de dados e produção de softwares adequados à gestão é outra metodologia de grande alcance aplicado. E a capacitação de gestores deve ser avançada nesse sentido: gerenciamento integrado, preditivo e em nível de bacia hidrográfica é o que deve ser a base dessa capacitação.
Quanto à governança da água, o movimento descentralizador que existe promovendo uma gestão por bacias hidrográficas é fundamental. A bacia hidrográfica – uma unidade biogeofisiográfica – que drena para um rio, lago ou oceano é a unidade natural de pesquisa e gestão (Likens, 1992; Tundisi, 2003; Tundisi & Matsumura-Tundisi, 2008). Uma bacia hidrográfica tem todos os elementos para integração de processos biogeofísicos, econômicos e sociais, é a unidade natural que permite integração institucional, integração e articulação da pesquisa com o gerenciamento, e possibilita ainda implantar um banco de dados que funcionará como uma plataforma para o desenvolvimento de projetos com alternativas, levando-se em conta os custos destas. É cada vez mais evidente que novas tecnologias como ecotecnologias e eco-hidrologias com soluções que incluem os usos de sistemas naturais e dos processos naturais serão utilizadas intensivamente na conservação e recuperação de lagos, represas e rios, e na conservação de águas subterrâneas e manutenção dos aquíferos (Zalewski, 2007).
Além do problema da governança dos recursos hídricos, a outra questão referente ao gerenciamento também deverá apresentar grandes alterações: de um gerenciamento local, setorial e de resposta existe, atualmente, uma transição para um gerenciamento em nível de ecossistema (bacia hidrográfica), integrado (integrando o ciclo de águas atmosféricas, superficiais e subterrâneas e integrando os usos múltiplos).
A participação dos usuários, do público, da iniciativa privada e do setor público deve ser um dos eixos principais dessa governança dos recursos hídricos no contexto de bacias hidrográficas (Rogers, 2006). Essa participação deverá melhorar e aprofundar a sustentabilidade da oferta e demanda e a segurança coletiva da população em relação à disponibilidade e vulnerabilidade.

Água na
agricultura

A demanda mundial para a produção de alimentos aumenta progressivamente a taxas muito altas. Atualmente, na maioria dos países, continentes e regiões, a água consumida na agricultura é de cerca de 70% da disponibilidade total. Há uma enorme necessidade de redução desse uso com a introdução de tecnologias adequadas, eliminação dos desperdícios e introdução de reuso e reciclagem. Os usos da água incluem uma excessiva utilização para irrigação a partir de águas subterrâneas. De acordo com Llamas & Martinez Santos (2006), o uso intensivo de água subterrânea para a agricultura em países e regiões áridas e semi-áridas vem provocando drástica diminuição no volume dos aquíferos, aumento nos custos da extração de água (0,01 U$/m3 ou até 0,2 U$/m3) e aumento no custo de irrigação por hectare (oscilando entre U$20 a U$1.000 por hectare, dependendo da qualidade do bombeamento). O investimento em produção de alimentos mais rentáveis – cash crops – significa maior investimento e usos mais intensivos de água na agricultura. A degradação da qualidade da água superficial e subterrânea é outro componente relevante dos usos da água na agricultura, e essa degradação deve ser quantificada. A eutrofização de lagos, represas e rios é uma das consequências dos usos excessivos de fertilizantes na agricultura, os quais, combinados com alterações de drenagem, podem aumentar consideravelmente e com rapidez os índices de estado trófico, incluindo as águas subterrâneas. Avaliação da água virtual (utilizada na agricultura), desenvolvimento de tecnologias para eliminar desperdícios e melhorar o desempenho na irrigação; introduzir reuso de água na agricultura são algumas das soluções urgentes nessa área.

Água e economia
regional e nacional

Economias regionais e nacionais dependem da disponibilidade adequada de água para geração de energia, abastecimento público, irrigação e produção de alimentos (agricultura, aquicultura e pesca, por exemplo). Melhorar a gestão dos recursos hídricos integrando e otimizando os usos múltiplos, alocando de forma flexível a água para os diferentes usuários e investindo em saneamento público (coleta de esgotos, tratamento de esgotos, resolvendo problemas sanitários de doenças de veiculação hídrica) é uma das formas mais relevantes de desenvolvimento econômico e social, pois melhora a qualidade de vida, promove a geração de empregos e renda e amplia a capacidade de abastecimento de água para usos múltiplos e estímulo à economia (Bhatia & Bhatia, 2006).
Tecnologias de baixo custo podem fornecer a implantação de medidas e o desenvolvimento de ações em saneamento básico, especialmente para populações de baixa renda nas periferias das grandes regiões metropolitanas (Tundisi et al., 2006).

Água e mudanças
climáticas

Alterações climáticas terão papel relevante no ciclo hidrológico e na quantidade e qualidade da água. Essas alterações podem promover inúmeras mudanças na disponibilidade de água e na saúde da população humana. De um modo geral e com alterações diversas em continentes e regiões, três problemas fundamentais devem ser estudados para promover soluções: a) extremos hidrológicos – extremos hidrológicos que ocorrerão em diferentes continentes e regiões deverão afetar populações humanas em razão de desastres (enchentes, deslizamentos, transbordamentos nas várzeas) ou secas intensas (aumento na semi-aridez e aridez), comprometendo a saúde humana, a segurança alimentar e aumentando a vulnerabilidade dos ciclos e processos biogeoquímicos; áreas urbanas poderão ser extremamente afetadas por estes extremos hidrológicos; b) contaminação – os estudos desenvolvidos em muitas regiões apontam para um aumento acentuado de contaminação agravado por salinização e descontrole nos usos do solo, interferindo com os ciclos do fósforo, nitrogênio e metais pesados (Martineli et al., 1999) – a eutrofização de águas superficiais (rios, lagos e represas) deverá aumentar em razão do aumento da temperatura da água e da resistência térmica à circulação: como consequência, espera-se maior frequência dos florescimentos de cianobactérias (Paerl & Hussmann, 2008), agravando a toxicidade das nascentes e fonte naturais de abastecimento –; c) água e economias regionais e nacionais.
Esses extremos hidrológicos e o aumento da contaminação deverão atuar nas economias regionais, tendo como consequência profundas alterações na economia dependente da disponibilidade e demanda dos recursos hídricos.
A solução para o enfrentamento das consequências dos efeitos das mudanças globais nos recursos hídricos é adaptar-se a essas alterações, promovendo melhor governança em nível de bacias hidrográficas, desenvolvendo tecnologias avançadas de monitoramento e gestão, ampliando a participação da comunidade – usuários e público em geral – nessa gestão e no compartilhamento dos processos tecnológicos que irão melhorar a infraestrutura do banco de dados e dar maior sustentabilidade às ações.

Recursos hídricos e
cooperação internacional

Em face das mudanças climáticas cujas evidências são bastante claras já a partir dos últimos do século XX e neste início do século XXI (IPCC, 2007), há a necessidade de intensa cooperação internacional, especialmente em bacias compartilhadas por vários países. O desenvolvimento dessas parcerias internacionais na gestão de bacias hidrográficas tem sido objeto de discussões, análises, propostas e algumas ações que visam compartilhar problemas, diagnosticar as causas e promover soluções conjuntas (Yundisi, 2003; Somlyody & Varis, 2006).
A América do Sul, cooperação internacional efetiva tem se desenvolvido na bacia do Prata (compartilhada por Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai) e na bacia Amazônica (compartilhada por nove países). Ações conjuntas de monitoramento para controle da qualidade da água, estudos conjuntos para avaliar o impacto dos usos do solo na contaminação e degradação dos recursos hídricos e realização de programas de capacitação conjunta de gestores de recursos hídricos são algumas ações e atividades já desenvolvidas e que têm estimulado políticas públicas de longo prazo para a gestão dessas bacias.
Outros exemplos relevantes em que a cooperação internacional tem atuado intensivamente para resolver problemas comuns de disponibilidade, demanda e escassez são:
• Programas de cooperação internacional nos dez países que compartilham a bacia do Rio Nilo (Magadza, 2002), os quais, com uma população de aproximadamente 230 milhões de habitantes, têm necessidades crescentes quanto aos usos e à demanda de águas e grandes problemas de saneamento (crescimento populacional de 3,9% ao ano).
• Cooperação internacional para gerenciamento do Mar Cáspio compartilhado por cinco países. Um dos principais problemas é a exploração de petróleo e o potencial de contaminação nessa região, além da produção pesqueira que é importante economicamente (Golubev, 2002).
• Cooperação internacional no Rio Danúbio, cuja bacia hidrográfica é compartilhada por dez países (principais problemas: navegação e transporte, usos da água, controle da poluição e projetos de proteção ambiental da bacia do Rio Danúbio e seus trezentos tributários (Jansky, 2002)).
Atualmente, 150 acordos internacionais relacionados com bacias hidrográficas transfronteiriças estão em curso, na Europa e nos Estados Unidos.
Um avanço considerável na gestão compartilhada dos recursos hídricos na Europa são as Diretrizes da União Européia para a gestão das águas (European Water Framework Directive (Jansky, 2002), essas diretrizes têm os seguintes objetivos:
• Disponibilidade de água de melhor qualidade para abastecimento humano.
• Disponibilidade de água de melhor qualidade em rios e lagos para utilização pública em recreação (banhos e natação).
• Água menos poluída como parte das heranças locais e regionais e parte das ações ambientais rumo à sustentabilidade.
Outra iniciativa importante é a ação proposta pelo Inter Academy Panel (IAP) que reúne 96 Academias de Ciências para ampliar e aprofundar a capacidade de formação de gestores de recursos hídricos com uma visão integrada e sistêmica. Atualmente, seis países já promoveram seminários regionais, cursos e publicações em um esforço conjunto da rede internacional: África do Sul, Brasil, China, Rússia, Polônia, Jordânia. Além desse esforço, Academias de Ciências das Américas agrupadas em uma associação internacional, Inter American Network of Academies of Sciences (Ianas), estão promovendo cursos, discussões, seminários e a implementação de um volume para cada país com diagnósticos, prognósticos e estratégias de gestão das águas nos países das Américas (Tundisi & Scheuenstuhl, 2008, no prelo).

Recursos hídricos
e energia

A produção de energia, especialmente no Brasil, depende da disponibilidade de recursos hídricos, dada a matriz energética brasileira que depende em 50% desse recurso. Além disso, o transporte de água tratada depende de energia para bombeamento, o que aumenta os custos para disponibilizá-la. No caso do Brasil e de outros países dependentes da energia hidroelétrica, estudos estratégicos de longa duração devem fixar as bases para essa exploração futura, bem como examinar as consequências dessa exploração nas bacias hidrográficas e no ciclo hidrossocial.

Recursos hídricos no Brasil: prioridades
para governança, conservação e recuperação

O Brasil, com 14% da água do planeta, possui, entretanto, uma distribuição desigual do volume e disponibilidade de recursos hídricos: enquanto um habitante do Amazonas tem 700.000 m3 de água por ano disponíveis, um habitante da Região Metropolitana de São Paulo tem 280 m3 por ano disponíveis. Essa disparidade traz inúmeros problemas econômicos e sociais, especialmente levando-se em conta a disponibilidade/demanda e saúde humana na periferia das grandes regiões metropolitanas do Brasil: esse é um dos grandes problemas ambientais deste início de século XXI no Brasil. Portanto, saneamento básico, tratamento de esgotos, recuperação de infraestrutura e de mananciais são prioridades fundamentais no Brasil. Outra prioridade é avançar na gestão dos recursos hídricos com a consolidação da descentralização e da governabilidade com a abordagem de bacias hidrográficas. Nesse caso, a interação entre disponibilidade/demanda de recursos hídricos com a população da bacia hidrográfica e a atividade econômica e social, considerando-se o ciclo hidrossocial, é também fundamental e de grande alcance para o futuro.
A grande disponibilidade de água em certas regiões do Brasil deve ser considerada, sem dúvida, um enorme recurso natural a ser utilizado para o desenvolvimento econômico regional, para o estímulo à economia e para a promoção de alternativas adequadas para o desenvolvimento, baseadas no ciclo hidrossocial.
A revitalização de rios, lagos e represas em muitas regiões do Brasil, especialmente no Sudeste, pode também promover estímulos econômicos e recuperar o ciclo hidrossocial. Nessas regiões impactadas do Sudeste com um passivo ambiental muito alto, a revitalização pode promover geração de emprego e renda, novas oportunidades de usos múltiplos e gerar uma indústria de novas e promissoras tecnologias para gestão (monitoramento avançado, consultorias, formação de recursos humanos).
É fundamental, entretanto, promover, em âmbito nacional no Brasil, um conjunto de estudos estratégicos sobre recursos hídricos e energia, recursos hídricos e economia, água e saúde humana, água e mudanças globais, com a finalidade de promover visões e cenários de longo prazo que estimulem políticas públicas consolidadas.
Deve-se ainda considerar o importante papel de dessalinização no abastecimento de cidades das regiões litorâneas e mesmo em lagos salinos do interior do Nordeste, tornando disponível mais água para a população. Essa é uma das soluções que poderão tornar-se viáveis após a tecnologia a desenvolver tornar o custo da dessalinização mais acessível.
Quanto às transposições, mais especificamente a transposição do Rio São Francisco, é importante considerar que somente um projeto conjunto de revitalização do rio (e despoluição) e um grande projeto de desenvolvimento regional poderão ser a base para a transposição (Tundisi et al., 2008).

Conclusões

Uma abordagem de gerenciamento, pesquisa e elaboração de banco de dados a partir da bacia hidrográfica deve incluir uma valoração dos “serviços” dos ecossistemas aquáticos e dos recursos hídricos, uma capacidade preditiva baseada em um programa denso e tecnicamente avançado de monitoramento e um sistema adequado de governança de água com a finalidade de promover oportunidades de desenvolvimento regional e sustentável a partir da água disponível e da demanda. Gerenciamento integrado, preditivo com alternativas e otimização de usos múltiplos deve ser implantado no nível de bacias hidrográficas com a finalidade de descentralizar o gerenciamento e dar oportunidades de participação de usuários, setor público e privado. Educação da comunidade em todos os níveis e preparação de gestores com novas abordagens é outro necessário desenvolvimento da gestão de recursos hídricos no século XXI.

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José Galizia Tundisi é presidente e pesquisador do Instituto Internacional de Ecologia, São Carlos-SP. @ – tundisi@iie.com.br
TUNDISI, José Galizia. Recursos hídricos no futuro: problemas e soluções. Estud. av., São Paulo, v. 22, n. 63, 2008 . Disponível em . acessos em 08 set. 2010. doi: 10.1590/S0103-40142008000200002.
Fonte: EcoDebate, 09/09/2010

(*) Limnólogo. Publicou 300 trabalhos técnicos e 15 livros nas áreas de limnologia, gerenciamento de recursos hídricos e ecologia de ecossistemas aquáticos neutropicais; é presidente e pesquisador do Instituto Internacional de Ecologia, São Carlos (SP).

 

POÇOS TUBULARES: ESCLARECIMENTO AO PÚBLICO

 

A ABAS-RJ – Associação Brasileira de Águas Subterrâneas – Núcleo Rio de Janeiro, vem a público esclarecer a sociedade fluminense sobre os equívocos que a NOVA CEDAE – Companhia Estadual de Águas e Esgoto vem cometendo em sua política de desestimular a construção de poços para captação de água subterrânea em nosso Estado, que além de prejudicar a população, prejudica os profissionais e as empresas que atuam nesta área específica.

Esta prática pode ser facilmente visualizada em seu site, onde através do intitulado “GUIA DO USUÁRIO”, tece uma série de considerações equivocadas sobre poços.

Cabe esclarecer que estas incorreções prejudicam a sociedade fluminense e devem ser denunciadas. Esta companhia que há muito acumula insatisfações de seus usuários, vem prestando um desserviço à população do Estado do Rio de Janeiro.

É direito garantido pela Constituição Brasileira, ao cidadão, a possibilidade de, caso deseje, construir poços para captação de água subterrânea, para sua utilização, desde que obedeça a legislação vigente.

Em primeiro lugar, gostaríamos de sugerir, que ao contrário do que afirma em seu site, antes de se abrir um poço, não é necessário se consultar a NOVA CEDAE, pois, esta função foge as suas atribuições.

Consultem um geólogo especialista em águas subterrâneas e construção de poços ou outro profissional com especialização comprovada nesta área. Este profissional está habilitado legalmente pelo CREA-RJ – Conselho Regional de Engenharia, Agronomia e Arquitetura do Rio de Janeiro, para prestar as orientações necessárias para este fim.

A ABAS-RJ poderá auxiliar aos interessados neste assunto a encontrar um profissional em seus quadros.

Esta consulta também pode ser feita diretamente ao setor de outorgas do INEA – Instituto Estadual do Ambiente, único órgão responsável pela concessão de autorizações de projetos para construção de poços

À título de esclarecimento, a construção de poços é uma obra de engenharia, constituída de projeto que contempla todo o conhecimento hidrogeológico do subsolo, através de: sondagem geológica, estudos ambientais, ensaios de bombeamento, análises físico-química e bacteriológica da água, entre outros estudos que irão viabilizar a sua utilização dentro da legislação vigente, com o aval do órgão ambiental estadual, o INEA.

Portanto, a construção de poços feitos e operados de acordo com as normas técnicas, não impacta o meio ambiente e muito menos coloca a saúde da população em risco, servindo como fonte alternativa de abastecimento e até como forma complementar ao abastecimento da concessionária pública de água, em caso de um interrompimento em seu fornecimento.

Quando a NOVA CEDAE generaliza qualquer tipo de poço, ela está prejudicando todos aqueles que desejam construí-los de forma correta.

Para conhecimento da população, a própria NOVA CEDAE possui inúmeros poços que abastecem diversas comunidades no Estado do Rio de Janeiro, e que diversos deles operam irregularmente, pois, não cumprem as exigências legais previstas na legislação vigente do Estado do Rio de Janeiro.

Esperamos que com esses esclarecimentos, a ABAS-RJ venha estar contribuindo de forma adequada para as boas práticas éticas, ambientais e legais, quanto à utilização dos recursos hídricos subterrâneos.

DIRETORIA ABAS-RJ ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ÁGUAS SUBTERRÂNEAS NÚCLEO RIO DE JANEIRO

 

 

 

Cada centavo investido em avaliação de áreas contaminadas, economiza um real com remediação

 

 
Everton de Oliveira é Geólogo, Coordenador do I CIMAS, Secretário Executivo e ex-presidente da Associação Brasileira de Águas Subterrâneas (ABAS)
   

 

Quem nunca teve a necessidade de utilizar serviços de saúde para si ou para alguém querido? Em situações mais desesperadoras, tudo o que se procura é um excelente médico, que nos tire as dúvidas sobre qual a origem da doença. Eventualmente, até mesmo recorrer a uma segunda opinião para dirimir as incertezas. Tudo porque são realizadas interpretações sobre algo que não se vê diretamente, que se encontra no interior do corpo humano. E um bom médico baseará sua decisão em exames rigorosos. Sua experiência e conhecimento são fundamentais para a interpretação dos resultados, mas os exames fornecem subsídios necessários para que a decisão seja a acertada.

Se encararmos uma contaminação subterrânea como uma doença do meio ambiente subterrâneo e, por extensão, do meio ambiente como um todo, sua cura, ou mais propriamente, sua remediação, dependerá de um bom diagnóstico. Diferentemente do corpo humano, a crosta terrestre varia muito de local para local, apresentando possibilidades muito amplas para a interpretação da doença ou contaminação. É imprescindível que se compreenda, ao máximo, o que ocorre naquela fração do meio ambiente subterrâneo para que se faça um diagnóstico preciso e se oriente a ação mais efetiva. Como os valores envolvidos em uma avaliação adequada são elevados, estes tendem a ser minimizados e, na ansiedade de se remover a contaminação da forma mais rápida e barata possível, parte-se imediatamente para a remediação. Seria semelhante a partir para uma ação cirúrgica diretamente, sem os exames adequados. Exceto em casos onde o diagnóstico é evidente, esta é uma decisão temerária. Entretanto, isto não é tão evidente quando se trabalha com o meio ambiente subterrâneo.

Os contaminantes tendem a seguir caminhos preferenciais quando em subsuperfície. E estes caminhos não são visíveis, como tudo o mais em meio ambiente subterrâneo. Sua determinação e, por conseguinte, a definição da remediação adequada, necessita de muitos ensaios e coleta de informações. Os valores envolvidos na remediação são geralmente elevados e podem variar de R$ 100.000,00 a R$ 2.000.000,00, dependendo da situação. Quando mal empregados, os trabalhos devem ser revistos e refeitos. Vale a máxima de quem gasta mal gasta duas vezes. Ou mais vezes.

Técnicas sofisticadas de avaliação estão aparecendo constantemente, acompanhando a evolução tecnológica. Metodologias de amostragem contínua, análises no próprio local (in-situ), coletas de solo ou água subterrânea específicas para cada tipo de contaminação, softwares para interpretação e modelagem, enfim, uma grande quantidade de ferramentas encontra-se disponível para uma avaliação adequada. Cada centavo investido em avaliação corresponde a um real economizado em remediação.

Todas estas técnicas, embora sofisticadas, serão abordadas no I Congresso Internacional de Meio Ambiente Subterrâneo (I CIMAS), que será realizado de 15 a 18 de setembro, em São Paulo (www.abas.org.br\cimas). O evento reunirá os nomes mais importantes do mundo desta área do conhecimento, além dos profissionais e consumidores de produtos relativos à avaliação e remediação de locais contaminados.

Investir em avaliação do seu local contaminado é economizar muito em remediação. Vale o investimento.

 


 

 

 

Água Subterrânea, Lei de Saneamento e Monopólios

 

 

Amilcar Pereira da Silva Júnior - Geólogo-Especialista em Recursos Hídricos - Membro da Diretoria da ABAS-Núcleo RJ
   

 

Em artigo onde aborda a questão da água subterrânea face à Lei Federal nº 11.445/2007 (Lei de Saneamento), claramente favorável ao monopólio público e/ou privado, contrariando a livre concorrência, Amilcar Pereira da Silva Júnior, Geólogo-Especialista em Recursos Hídricos e Membro da Diretoria da ABAS-Núcleo RJ, é taxativo:

“Infelizmente, este recurso natural de fontes subterrâneas, disponível e garantido, constitucionalmente, a todos os brasileiros, passe a ser exclusivo do monopólio estadual e/ou privado, como estabelecido pela Lei nº 11.445/2007, sendo mal utilizado, ou o que é pior, relegado a segundo plano pelas empresas de abastecimento e saneamento, como ocorre, por exemplo, no Estado do Rio de Janeiro”.

Menciona ainda que “após dez anos de consolidação da Lei 9.433/97, que instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos, a qual contribuiu, com sucesso, para a utilização de mananciais, tanto superficiais quanto subterrâneos, de forma segura e ambientalmente sustentável”.

Finaliza, diante do exposto: “Apelo para que nossas representações políticas discutam, de forma mais ampla, o conteúdo da Lei nº 11.445/2007, suas implicações para a correta destinação dos recursos públicos, como também para a promoção das diversas fontes alternativas de captação, tratamento e abastecimento de água para a sociedade brasileira, em consonância com os preceitos ambientais e de saúde pública, visando o desenvolvimento integrado e sustentável do país”.

Artigo, na íntegra: saiba mais

 

 

 

 A era da água

 

Everton de Oliveira
- Presidente da ABAS – Associação Brasileira de Águas Subterrâneas para o biênio 2007-2008*
   

Nosso país deve orientar-se pelo uso da água subterrânea em toda sua potencialidade. Os estados precisam estar equipados com leis adequadas para a gestão correta do uso deste recurso, além de se equiparem para sua preservação, uma vez que o esgoto doméstico é o principal poluente potencial de nossos aqüíferos e é função do estado de fazer sua coleta.

Água, hoje em dia, é assunto. Há até conjecturas sobre possíveis guerras futuras para o acesso à água. Hoje, água é pauta para várias discussões. E 97% da água disponível para consumo humano no planeta é subterrânea. Logo, a pauta deverá inexoravelmente caminhar para o entendimento desta como parte de nosso dia-a-dia. Todos nós vimos um poço um dia em nossas vidas, mas poucos de nós parou para pensar em como a água chega ao seu interior, se sua quantidade varia com o passar do tempo, se a qualidade também varia como passar do tempo.

As respostas simples para estas questões permitem-nos organizar nossas ações visando à preservação da água subterrânea e, por extensão, das águas como um todo. Por serem subterrâneas, esses 97% nos são praticamente invisíveis, somente aparecendo em nascentes, e lembra das quando vemos um poço.

Em primeiro lugar, as águas subterrâneas são armazenadas nos poros do material geológico que compõe os chamados aqüíferos, cuja etimologia remete a um material com capacidade de armazenar e transmitir água em quantidades apreciáveis. As águas de chuva, ao atingirem a superfície do solo dividem-se em uma parte que escoa superficialmente, indo alimentar diretamente os rios e lagos, e outra parte que se infiltra, indo alimentar os aqüíferos. Esse fenômeno chama-se recarga e é o responsável pela realimentação da água que aparece nos poços e, em grande parte, das águas que fluem nos rios e drenagens superficiais. Muitos rios do nordeste do Brasil são alimentados quase que exclusivamente por água subterrânea. Logo, a quantidade de água de um poço depende de sua recarga. Longos períodos de estiagem irão corresponder a uma menor disponibilidade hídrica subterrânea. Por outro lado, a qualidade da água subterrânea depende, em princípio, da interação com o material geológico que compõe o aqüífero e de possíveis alterações causadas pela introdução de compostos estranhos à sua composição: poluição. Ao contrário de rios e lagos, onde a poluição é imediata, pois o acesso à água é direto, nos aqüíferos a poluição é muito mais lenta, pois o fluxo das águas subterrâneas também é lento, tipicamente variando entre 1 metro por dia a 1 metro por ano. Nos aqüíferos, a água encontra-se mais abrigada tanto da evaporação quanto de potencial contaminação. Logo os aqüíferos são mais protegidos, mas não são imunes a contaminações e devem ser remediados (termo técnico) quando tiverem sua qualidade alterada. Inúmeras são as possibilidades de se poluir as águas em geral, e as águas subterrâneas em particular, mas o elemento poluidor mais onipresente é o esgoto doméstico.

Como somos um país ainda mal servido pela coleta de esgotos, este infiltra-se no solo, indo eventualmente parar nos aqüíferos. Uma fossa nada mais é do que um sistema de infiltração. Preocupante, não?

Devemos nos lembrar que o problema água hoje é pauta mais por estarmos sujando a água que posteriormente iremos utilizar, do que pela sua escassez, uma vez que a quantidade de água do planeta é praticamente invariável. Esgoto doméstico é um vilão, sem dúvida.

Nosso país deve orientar-se claramente pelo uso da água subterrânea em toda sua potencialidade. Os estados precisam estar equipados com leis adequadas para permitirem que técnicas corretas de perfuração de poços, de explotação de quantidades que não superem a capacidade de reposição de água pela recarga, enfim, de gestão correta do uso deste recurso, além de se equiparem para sua preservação, uma vez que o esgoto doméstico é o principal poluente potencial de nossos aqüíferos e é função do estado de fazer sua coleta.

Água vai continuar a ser assunto, e as águas subterrâneas virão cada vez mais à superfície das discussões em torno do uso racional dos recursos hídricos.

(*) Presidente da ABAS – Associação Brasileira de Águas Subterrâneas para o biênio 2007-2008; Geólogo formado pelo Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo, Mestre em Hidrogeologia pelo mesmo Instituto e Doutor em Hidrogeologia de Contaminação pela Universidade de Waterloo,Canadá.

 

        

 O Geólogo e a Hidrogeologia

 

Gerson Cardoso da Silva Jr
- Geólogo e Hidrogeólogo
   

O Dia do Geólogo que a ABAS-RJ e outras entidades, como a APG-RJ, celebraram este ano no Clube de Engenharia, será sempre uma data tão cara a todos nós por nos conferir um senso de pertinência, por nos fazer refletir sobre a nossa vida profissional e sobre o papel da Geologia em nossas vidas – como nosso ganha-pão, pela busca incessante pelo aperfeiçoamento, a necessidade de bem realizar, os bons e maus momentos que tivemos os quais, talvez de forma mais evidente que em outras atividades, estão indissociados de nossa profissão - e também sobre o papel da Geologia na sociedade como um todo.

Questões como as mudanças climáticas, a previsível futura escassez de recursos hídricos de boa qualidade, a ameaça de danos devido a catástrofes naturais e a necessidade do uso e gestão adequados dos recursos naturais fazem com que a geração do Conhecimento Geológico seja sem dúvida cada vez mais prioritária, indispensável e urgente.

O papel do Hidrogeólogo é fundamental em todo esse processo. De um profissional que no passado tinha sua atuação ligada quase exclusivamente à obtenção de água subterrânea para abastecimento, o Hidrogeólogo ampliou de tal maneira seu raio de ação que hoje é requisitado em praticamente todo estudo, pesquisa ou empreendimento de porte ligado à temática ambiental.

Esse novo status profissional criou, além de novas oportunidades profissionais e pessoais, uma enorme responsabilidade, pois levou à necessidade de o Geólogo lidar com temas muitas vezes pobremente cobertos por seu currículo profissional básico, como tecnologias de informação, modelagem matemática, microbiologia, climatologia, etc.

Não podemos nos permitir a cometer os mesmos erros do passado nas questões ambientais e, em particular, com respeito aos recursos hídricos. A sociedade espera, portanto, muito de nós, que não temos alternativa senão buscar o contínuo aperfeiçoamento e aprendizado para responder adequadamente a esses desafios. E onde vamos buscar essa fonte de conhecimento, esse diferencial que faz com que haja essa expectativa depositada sobre nossos ombros?

A resposta, estou cada vez mais convencido, é uma só: o Conhecimento Geológico, aquele conjunto de conceitos por vezes pouco relacionados diretamente, heterogêneo, complexo em sua trama e que faz com que nos identifiquemos como profissionais, compartilhando de um mesmo tesouro. Portanto, no Dia do Geólogo, o Hidrogeólogo deve, além de refletir sobre as suas raízes e confraternizar com os colegas e amigos, usufruir a alegria de pertencer a essa tribo maravilhosa.

 


 

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