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Egmont Capucci – Dedicado há 41 anos à Geologia; especializado em Hidrogeologia pela Universidade Politécnica de Barcelona (Espanha). |
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Potencialidades dos Aquíferos no Estado do Rio de Janeiro
Egmont Capucci (*)) |
Apesar de o Estado do Rio de Janeiro possuir 80% de seu território recoberto por rochas cristalinas, consideradas de baixa produção aquífera, bem como possuir em suas bacias sedimentares espessos horizontes argilosos, poços tubulares construídos em bases tecnicamente consistentes no interior do estado têm revelado resultados surpreendentes, tanto do ponto de vista quantitativo quanto qualitativo.
Com efeito, se considerarmos que o Rio Paraíba do Sul recarrega em seu médio curso o cristalino através de uma estrutura tectônica favorável à captação de água subterrânea em grande volume (gráben do Rio Paraíba do Sul), poços bem locados e construídos nesta região produzirão resultados promissores em ambas margens.
Considerando ainda que seu médio curso, com cerca de 200km de extensão, possui cidades industriais susceptíveis a severos acidentes ambientais, a água subterrânea assume nesta região uma relevante importância estratégica, justificando plenamente estudos que visem ao melhor aproveitamento deste aquífero.
Assim, citando-se recentes exemplos, poços perfurados com apoio técnico para os municípios de Carmo, Três Rios e Barra Mansa produziram vazões operacionais superiores a 20m³/h, bem como poços construídos para reforço de indústria de água mineral em Três Rios, revelaram pioneiramente neste aquífero água de excelente qualidade, litinada, com Sólidos Totais Dissolvidos (STD) inferiores a 100 ppm (parte por milhão).
Estes resultados foram, pioneiramente, obtidos através de estudos bem elaborados, analisando e isolando águas de pior qualidade existentes nas fraturas mais superficiais, através de obturadores pneumáticos, abrindo alternativas para solução ou redução da ocorrência de água ferruginosa subterrânea ao longo do curso do Rio Paraíba do Sul.
Por outro lado, um poço construído para a Light, na Ilha dos Pombos, com 96m de profundidade, próximo à cidade de Além Paraíba, produziu inédita vazão surgente de 40 m³/h, com água levemente ferruginosa. Resta lembrar que, geralmente, a construção de poços neste aquífero não exige aplicação de seções filtrantes, facilitando os serviços de perfuração, manutenção e aumento de sua vida útil.
Portanto, abre-se a baixos custos, um leque de perspectivas ao reforço de abastecimento de cidades ou vilas situadas em terrenos cristalinos com base no recurso hídrico subterrâneo no Estado do Rio.
Referente aos aquíferos costeiros da bacia de Campos, localidades importantes como a Região Metropolitana de Campos dos Goytacazes, Farol de São Tomé, Praia do Açu, Cajueiro, Barcelos, Grussaí, Atafona e todo o município de São Francisco do Itabapoana são abastecidos por poços operados pela Concessionárias Águas do Paraíba e pela Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae), com profundidades de 150 a 250m, captando água de formações terciárias, com vazões de 40 a 220 m³/h, e teores de cloretos de 20 a 100 ppm, necessitando apenas de cloração preventiva, resultados considerados surpreendentes para aquíferos costeiros.
No tocante a porção média da bacia, os melhores resultados ocorrem na faixa litorânea, em função da grande espessura aquífera, aferida com mais de 200 metros, com extensão de 45km, observada desde a cidade de Farol de São Tomé até a cidade de Atafona, permitindo, no futuro, garantia de água em volumes suficientes para projetos de indústrias que necessitem se estabelecer em paralelo ao desenvolvimento da indústria petroleira da Bacia de Campos, como o Porto do Açu, desde que sua explotação esteja embasada por estudos consistentes.
Quanto aos resultados obtidos na formação sedimentar do entorno da Baía de Guanabara, ocorrendo desde a cidade de Itaboraí até Duque de Caxias, apesar do custo construtivo dos poços ser pequeno, com profundidades de até 120 metros, suas perspectivas de vazão não permitem atendimentos domésticos extensivos, devido às altas concentrações demográficas existentes e a baixa permeabilidade aquífera, (vazões específicas da ordem de 0,5m³/h/m).
Assim, a combinação destes dois fatores impedem sua maior exploração, sendo apenas utilizado para suprimento de condomínios e indústrias. Suas águas possuem baixos teores de STD e ferro.
No entanto, a par de todas estas boas notícias, nossos poços padecem dos males crônicos que afetam as águas subterrâneas em todo o país, pois a maioria deles é mal construída e mal operada, onde é comum se constatar a inexistência de qualquer instrumento operacional, sendo assim instalados com "barriletes cegos", ou seja, não se vê ao menos um tubo para medir níveis de água, ou injetar desinfectantes para sua limpeza com a própria bomba; e neste aspecto estamos falando também dos grandes usuários.
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| (*) Egmont Capucci – Dedicado há 41 anos à Geologia; especializado em Hidrogeologia pela Universidade Politécnica de Barcelona (Espanha); autor de vários trabalhos técnicos apresentados em seminários e fóruns; co-autor de publicações técnicas; palestrante; Membro-Titular da ABAS – entidade nacional; Membro do Conselho Deliberativo da ABAS – Núcleo RJ; registro no Crea-RJ 19525-D; e-mail: egmoncapucci@globo.com |
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Recursos hídricos no
futuro: problemas e soluções
José
Galizia Tundisi (*)
A
crise atual da água tem muitos componentes de origem social, econômica
e ambiental: usos excessivos da água, aumento de demanda, gerenciamento
setorial e muito focado em quantidade. Contaminação da água, eutrofização
e alterações no ciclo hidrológico em razão das mudanças globais
são outros componentes. Para resolver esse conjunto de problemas
e avançar estratégias de planejamento e gestão em longo prazo, os
seguintes programas e abordagens são alguns mecanismos relevantes:
a) Uma abordagem da bacia hidrográfica integrando gestão, planejamento
e pesquisa científica; b) Um sistema avançado de governança dessas
bacias hidrográficas com a participação de usuários, setor público
e setor privado; c) Estudos estratégicos sobre água e economia,
água em áreas metropolitanas, água e energia; d) Uma estrutura para
cooperação internacional em bacias internacionais compartilhadas;
e) Uma avaliação econômica dos serviços dos recursos hídricos (águas
superficiais e subterrâneas, rios, lagos e represas); f) Programas
de capacitação de gerentes com uma abordagem integrada, preditiva,
técnica e tecnológica.
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As causas principais
da “crise” da água
Segundo alguns especialistas, a crise da
água no século XXI é muito mais de gerenciamento do que uma crise
real de escassez e estresse (Rogers et al., 2006). Entretanto, para
outros especialistas, é resultado de um conjunto de problemas ambientais
agravados com outros problemas relacionados à economia e ao desenvolvimento
social (Gleick, 2000). Para Somlyody & Varis (2006), o agravamento
e a complexidade da crise da água decorrem de problemas reais de
disponibilidade e aumento da demanda, e de um processo de gestão
ainda setorial e de resposta a crises e problemas sem atitude preditiva
e abordagem sistêmica. Tundisi & Matsumura-Tundisi (2008) acentuam
a necessidade de uma abordagem sistêmica, integrada e preditiva
na gestão das águas com uma descentralização para a bacia hidrográfica.
Segundo esses autores, uma base de dados consolidada e transformada
em instrumento de gestão pode ser uma das formas mais eficazes de
enfrentar o problema de escassez de água, estresse de água e deterioração
da qualidade.
Tundisi et al. (2008) destacam que, no amplo contexto social, econômico
e ambiental do século XXI, os seguintes principais problemas e processos
são as causas principais da “crise da água”:
• Intensa urbanização, aumentando a demanda pela água, ampliando
a descarga de recursos hídricos contaminados e com grandes demandas
de água para abastecimento e desenvolvimento econômico e social
(Tucci, 2008).
• Estresse e escassez de água em muitas regiões do planeta em razão
das alterações na disponibilidade e aumento de demanda.
• Infraestrutura pobre e em estado crítico, em muitas áreas urbanas
com até 30% de perdas na rede após o tratamento das águas.
• Problemas de estresse e escassez em razão de mudanças globais
com eventos hidrológicos extremos aumentando a vulnerabilidade da
população humana e comprometendo a segurança alimentar (chuvas intensas
e período intensos de seca).
• Problemas na falta de articulação e falta de ações consistentes
na governabilidade de recursos hídricos e na sustentabilidade ambiental.
Esse conjunto de problemas apresenta dimensões em âmbito local,
regional, continental e planetário. Esses problemas contribuem para:
• Aumento e exacerbação das fontes de contaminação.
• A alteração das fontes de recursos hídricos – mananciais – com
escassez e diminuição da disponibilidade.
• Aumento da vulnerabilidade da população humana em razão de contaminação
e dificuldade de acesso à água de boa qualidade (potável e tratada).
• Esse conjunto de problemas está relacionado à qualidade e quantidade
da água, e, em respostas a essas causas, há interferências na saúde
humana e saúde pública, com deterioração da qualidade de vida e
do desenvolvimento econômico e social.
A posição central dos recursos hídricos quanto
à geração de energia, produção de alimentos, sustentabilidade da
biodiversidade e a mudanças globais é destacada na Figura 1, e a
Figura 2 apresenta as principais inter-relações dos processos que
afetam qualidade e quantidade de água, a biota aquática e a população
humana.


Metodologias e propostas
para solução e prioridades
Tendo em vista essa situação, quais são as
abordagens, o programa e os projetos que podem promover uma profunda
alteração na gestão das águas e no preparo e aplicação de soluções
criativas e de custo adequado?
Inicialmente, deve-se cogitar que uma avaliação econômica dos “serviços”
dos recursos hídricos e dos ecossistemas aquáticos deve ser considerada
como uma base importante da metodologia e das ações futuras. Esses
“serviços” e sua valoração serão a base para uma governabilidade
adequada dos recursos hídricos. Serviços como regulação dos ciclos,
controle do clima, abastecimento de água, produção de energia e
alimentos devem ser a base para uma nova abordagem na gestão e governança
dos recursos hídricos (Mea, 2003). Capacidade de monitoramento avançado
com a elaboração de banco de dados e produção de softwares adequados
à gestão é outra metodologia de grande alcance aplicado. E a capacitação
de gestores deve ser avançada nesse sentido: gerenciamento integrado,
preditivo e em nível de bacia hidrográfica é o que deve ser a base
dessa capacitação.
Quanto à governança da água, o movimento descentralizador que existe
promovendo uma gestão por bacias hidrográficas é fundamental. A
bacia hidrográfica – uma unidade biogeofisiográfica – que drena
para um rio, lago ou oceano é a unidade natural de pesquisa e gestão
(Likens, 1992; Tundisi, 2003; Tundisi & Matsumura-Tundisi, 2008).
Uma bacia hidrográfica tem todos os elementos para integração de
processos biogeofísicos, econômicos e sociais, é a unidade natural
que permite integração institucional, integração e articulação da
pesquisa com o gerenciamento, e possibilita ainda implantar um banco
de dados que funcionará como uma plataforma para o desenvolvimento
de projetos com alternativas, levando-se em conta os custos destas.
É cada vez mais evidente que novas tecnologias como ecotecnologias
e eco-hidrologias com soluções que incluem os usos de sistemas naturais
e dos processos naturais serão utilizadas intensivamente na conservação
e recuperação de lagos, represas e rios, e na conservação de águas
subterrâneas e manutenção dos aquíferos (Zalewski, 2007).
Além do problema da governança dos recursos hídricos, a outra questão
referente ao gerenciamento também deverá apresentar grandes alterações:
de um gerenciamento local, setorial e de resposta existe, atualmente,
uma transição para um gerenciamento em nível de ecossistema (bacia
hidrográfica), integrado (integrando o ciclo de águas atmosféricas,
superficiais e subterrâneas e integrando os usos múltiplos).
A participação dos usuários, do público, da iniciativa privada e
do setor público deve ser um dos eixos principais dessa governança
dos recursos hídricos no contexto de bacias hidrográficas (Rogers,
2006). Essa participação deverá melhorar e aprofundar a sustentabilidade
da oferta e demanda e a segurança coletiva da população em relação
à disponibilidade e vulnerabilidade.
Água na
agricultura
A demanda mundial para a produção de alimentos aumenta progressivamente
a taxas muito altas. Atualmente, na maioria dos países, continentes
e regiões, a água consumida na agricultura é de cerca de 70% da
disponibilidade total. Há uma enorme necessidade de redução desse
uso com a introdução de tecnologias adequadas, eliminação dos desperdícios
e introdução de reuso e reciclagem. Os usos da água incluem uma
excessiva utilização para irrigação a partir de águas subterrâneas.
De acordo com Llamas & Martinez Santos (2006), o uso intensivo
de água subterrânea para a agricultura em países e regiões áridas
e semi-áridas vem provocando drástica diminuição no volume dos aquíferos,
aumento nos custos da extração de água (0,01 U$/m3 ou até 0,2 U$/m3)
e aumento no custo de irrigação por hectare (oscilando entre U$20
a U$1.000 por hectare, dependendo da qualidade do bombeamento).
O investimento em produção de alimentos mais rentáveis – cash crops
– significa maior investimento e usos mais intensivos de água na
agricultura. A degradação da qualidade da água superficial e subterrânea
é outro componente relevante dos usos da água na agricultura, e
essa degradação deve ser quantificada. A eutrofização de lagos,
represas e rios é uma das consequências dos usos excessivos de fertilizantes
na agricultura, os quais, combinados com alterações de drenagem,
podem aumentar consideravelmente e com rapidez os índices de estado
trófico, incluindo as águas subterrâneas. Avaliação da água virtual
(utilizada na agricultura), desenvolvimento de tecnologias para
eliminar desperdícios e melhorar o desempenho na irrigação; introduzir
reuso de água na agricultura são algumas das soluções urgentes nessa
área.
Água e economia
regional e nacional
Economias regionais e nacionais dependem
da disponibilidade adequada de água para geração de energia, abastecimento
público, irrigação e produção de alimentos (agricultura, aquicultura
e pesca, por exemplo). Melhorar a gestão dos recursos hídricos integrando
e otimizando os usos múltiplos, alocando de forma flexível a água
para os diferentes usuários e investindo em saneamento público (coleta
de esgotos, tratamento de esgotos, resolvendo problemas sanitários
de doenças de veiculação hídrica) é uma das formas mais relevantes
de desenvolvimento econômico e social, pois melhora a qualidade
de vida, promove a geração de empregos e renda e amplia a capacidade
de abastecimento de água para usos múltiplos e estímulo à economia
(Bhatia & Bhatia, 2006).
Tecnologias de baixo custo podem fornecer a implantação de medidas
e o desenvolvimento de ações em saneamento básico, especialmente
para populações de baixa renda nas periferias das grandes regiões
metropolitanas (Tundisi et al., 2006).
Água e mudanças
climáticas
Alterações climáticas terão papel relevante
no ciclo hidrológico e na quantidade e qualidade da água. Essas
alterações podem promover inúmeras mudanças na disponibilidade de
água e na saúde da população humana. De um modo geral e com alterações
diversas em continentes e regiões, três problemas fundamentais devem
ser estudados para promover soluções: a) extremos hidrológicos –
extremos hidrológicos que ocorrerão em diferentes continentes e
regiões deverão afetar populações humanas em razão de desastres
(enchentes, deslizamentos, transbordamentos nas várzeas) ou secas
intensas (aumento na semi-aridez e aridez), comprometendo a saúde
humana, a segurança alimentar e aumentando a vulnerabilidade dos
ciclos e processos biogeoquímicos; áreas urbanas poderão ser extremamente
afetadas por estes extremos hidrológicos; b) contaminação – os estudos
desenvolvidos em muitas regiões apontam para um aumento acentuado
de contaminação agravado por salinização e descontrole nos usos
do solo, interferindo com os ciclos do fósforo, nitrogênio e metais
pesados (Martineli et al., 1999) – a eutrofização de águas superficiais
(rios, lagos e represas) deverá aumentar em razão do aumento da
temperatura da água e da resistência térmica à circulação: como
consequência, espera-se maior frequência dos florescimentos de cianobactérias
(Paerl & Hussmann, 2008), agravando a toxicidade das nascentes
e fonte naturais de abastecimento –; c) água e economias regionais
e nacionais.
Esses extremos hidrológicos e o aumento da contaminação deverão
atuar nas economias regionais, tendo como consequência profundas
alterações na economia dependente da disponibilidade e demanda dos
recursos hídricos.
A solução para o enfrentamento das consequências dos efeitos das
mudanças globais nos recursos hídricos é adaptar-se a essas alterações,
promovendo melhor governança em nível de bacias hidrográficas, desenvolvendo
tecnologias avançadas de monitoramento e gestão, ampliando a participação
da comunidade – usuários e público em geral – nessa gestão e no
compartilhamento dos processos tecnológicos que irão melhorar a
infraestrutura do banco de dados e dar maior sustentabilidade às
ações.
Recursos hídricos e
cooperação internacional
Em face das mudanças climáticas cujas evidências
são bastante claras já a partir dos últimos do século XX e neste
início do século XXI (IPCC, 2007), há a necessidade de intensa cooperação
internacional, especialmente em bacias compartilhadas por vários
países. O desenvolvimento dessas parcerias internacionais na gestão
de bacias hidrográficas tem sido objeto de discussões, análises,
propostas e algumas ações que visam compartilhar problemas, diagnosticar
as causas e promover soluções conjuntas (Yundisi, 2003; Somlyody
& Varis, 2006).
A América do Sul, cooperação internacional efetiva tem se desenvolvido
na bacia do Prata (compartilhada por Argentina, Brasil, Chile, Paraguai
e Uruguai) e na bacia Amazônica (compartilhada por nove países).
Ações conjuntas de monitoramento para controle da qualidade da água,
estudos conjuntos para avaliar o impacto dos usos do solo na contaminação
e degradação dos recursos hídricos e realização de programas de
capacitação conjunta de gestores de recursos hídricos são algumas
ações e atividades já desenvolvidas e que têm estimulado políticas
públicas de longo prazo para a gestão dessas bacias.
Outros exemplos relevantes em que a cooperação internacional tem
atuado intensivamente para resolver problemas comuns de disponibilidade,
demanda e escassez são:
• Programas de cooperação internacional nos dez países que compartilham
a bacia do Rio Nilo (Magadza, 2002), os quais, com uma população
de aproximadamente 230 milhões de habitantes, têm necessidades crescentes
quanto aos usos e à demanda de águas e grandes problemas de saneamento
(crescimento populacional de 3,9% ao ano).
• Cooperação internacional para gerenciamento do Mar Cáspio compartilhado
por cinco países. Um dos principais problemas é a exploração de
petróleo e o potencial de contaminação nessa região, além da produção
pesqueira que é importante economicamente (Golubev, 2002).
• Cooperação internacional no Rio Danúbio, cuja bacia hidrográfica
é compartilhada por dez países (principais problemas: navegação
e transporte, usos da água, controle da poluição e projetos de proteção
ambiental da bacia do Rio Danúbio e seus trezentos tributários (Jansky,
2002)).
Atualmente, 150 acordos internacionais relacionados com bacias hidrográficas
transfronteiriças estão em curso, na Europa e nos Estados Unidos.
Um avanço considerável na gestão compartilhada dos recursos hídricos
na Europa são as Diretrizes da União Européia para a gestão das
águas (European Water Framework Directive (Jansky, 2002), essas
diretrizes têm os seguintes objetivos:
• Disponibilidade de água de melhor qualidade para abastecimento
humano.
• Disponibilidade de água de melhor qualidade em rios e lagos para
utilização pública em recreação (banhos e natação).
• Água menos poluída como parte das heranças locais e regionais
e parte das ações ambientais rumo à sustentabilidade.
Outra iniciativa importante é a ação proposta pelo Inter Academy
Panel (IAP) que reúne 96 Academias de Ciências para ampliar e aprofundar
a capacidade de formação de gestores de recursos hídricos com uma
visão integrada e sistêmica. Atualmente, seis países já promoveram
seminários regionais, cursos e publicações em um esforço conjunto
da rede internacional: África do Sul, Brasil, China, Rússia, Polônia,
Jordânia. Além desse esforço, Academias de Ciências das Américas
agrupadas em uma associação internacional, Inter American Network
of Academies of Sciences (Ianas), estão promovendo cursos, discussões,
seminários e a implementação de um volume para cada país com diagnósticos,
prognósticos e estratégias de gestão das águas nos países das Américas
(Tundisi & Scheuenstuhl, 2008, no prelo).
Recursos hídricos
e energia
A produção de energia, especialmente no Brasil,
depende da disponibilidade de recursos hídricos, dada a matriz energética
brasileira que depende em 50% desse recurso. Além disso, o transporte
de água tratada depende de energia para bombeamento, o que aumenta
os custos para disponibilizá-la. No caso do Brasil e de outros países
dependentes da energia hidroelétrica, estudos estratégicos de longa
duração devem fixar as bases para essa exploração futura, bem como
examinar as consequências dessa exploração nas bacias hidrográficas
e no ciclo hidrossocial.
Recursos hídricos no Brasil: prioridades
para governança, conservação e recuperação
O Brasil, com 14% da água do planeta, possui,
entretanto, uma distribuição desigual do volume e disponibilidade
de recursos hídricos: enquanto um habitante do Amazonas tem 700.000
m3 de água por ano disponíveis, um habitante da Região Metropolitana
de São Paulo tem 280 m3 por ano disponíveis. Essa disparidade traz
inúmeros problemas econômicos e sociais, especialmente levando-se
em conta a disponibilidade/demanda e saúde humana na periferia das
grandes regiões metropolitanas do Brasil: esse é um dos grandes
problemas ambientais deste início de século XXI no Brasil. Portanto,
saneamento básico, tratamento de esgotos, recuperação de infraestrutura
e de mananciais são prioridades fundamentais no Brasil. Outra prioridade
é avançar na gestão dos recursos hídricos com a consolidação da
descentralização e da governabilidade com a abordagem de bacias
hidrográficas. Nesse caso, a interação entre disponibilidade/demanda
de recursos hídricos com a população da bacia hidrográfica e a atividade
econômica e social, considerando-se o ciclo hidrossocial, é também
fundamental e de grande alcance para o futuro.
A grande disponibilidade de água em certas regiões do Brasil deve
ser considerada, sem dúvida, um enorme recurso natural a ser utilizado
para o desenvolvimento econômico regional, para o estímulo à economia
e para a promoção de alternativas adequadas para o desenvolvimento,
baseadas no ciclo hidrossocial.
A revitalização de rios, lagos e represas em muitas regiões do Brasil,
especialmente no Sudeste, pode também promover estímulos econômicos
e recuperar o ciclo hidrossocial. Nessas regiões impactadas do Sudeste
com um passivo ambiental muito alto, a revitalização pode promover
geração de emprego e renda, novas oportunidades de usos múltiplos
e gerar uma indústria de novas e promissoras tecnologias para gestão
(monitoramento avançado, consultorias, formação de recursos humanos).
É fundamental, entretanto, promover, em âmbito nacional no Brasil,
um conjunto de estudos estratégicos sobre recursos hídricos e energia,
recursos hídricos e economia, água e saúde humana, água e mudanças
globais, com a finalidade de promover visões e cenários de longo
prazo que estimulem políticas públicas consolidadas.
Deve-se ainda considerar o importante papel de dessalinização no
abastecimento de cidades das regiões litorâneas e mesmo em lagos
salinos do interior do Nordeste, tornando disponível mais água para
a população. Essa é uma das soluções que poderão tornar-se viáveis
após a tecnologia a desenvolver tornar o custo da dessalinização
mais acessível.
Quanto às transposições, mais especificamente a transposição do
Rio São Francisco, é importante considerar que somente um projeto
conjunto de revitalização do rio (e despoluição) e um grande projeto
de desenvolvimento regional poderão ser a base para a transposição
(Tundisi et al., 2008).
Conclusões
Uma abordagem de gerenciamento, pesquisa
e elaboração de banco de dados a partir da bacia hidrográfica deve
incluir uma valoração dos “serviços” dos ecossistemas aquáticos
e dos recursos hídricos, uma capacidade preditiva baseada em um
programa denso e tecnicamente avançado de monitoramento e um sistema
adequado de governança de água com a finalidade de promover oportunidades
de desenvolvimento regional e sustentável a partir da água disponível
e da demanda. Gerenciamento integrado, preditivo com alternativas
e otimização de usos múltiplos deve ser implantado no nível de bacias
hidrográficas com a finalidade de descentralizar o gerenciamento
e dar oportunidades de participação de usuários, setor público e
privado. Educação da comunidade em todos os níveis e preparação
de gestores com novas abordagens é outro necessário desenvolvimento
da gestão de recursos hídricos no século XXI.
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José Galizia Tundisi é presidente e pesquisador do Instituto Internacional
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Fonte: EcoDebate, 09/09/2010
(*) Limnólogo. Publicou 300 trabalhos técnicos
e 15 livros nas áreas de limnologia, gerenciamento de recursos hídricos
e ecologia de ecossistemas aquáticos neutropicais; é presidente
e pesquisador do Instituto Internacional de Ecologia, São Carlos
(SP).
POÇOS TUBULARES: ESCLARECIMENTO
AO PÚBLICO
A
ABAS-RJ – Associação Brasileira de Águas Subterrâneas – Núcleo Rio
de Janeiro, vem a público esclarecer a sociedade fluminense sobre
os equívocos que a NOVA CEDAE – Companhia Estadual de Águas e Esgoto
vem cometendo em sua política de desestimular a construção de poços
para captação de água subterrânea em nosso Estado, que além de prejudicar
a população, prejudica os profissionais e as empresas que atuam
nesta área específica.
Esta
prática pode ser facilmente visualizada em seu site, onde através
do intitulado “GUIA DO USUÁRIO”, tece uma série de considerações
equivocadas sobre poços.
Cabe
esclarecer que estas incorreções prejudicam a sociedade fluminense
e devem ser denunciadas. Esta companhia que há muito acumula insatisfações
de seus usuários, vem prestando um desserviço à população do Estado
do Rio de Janeiro.
É
direito garantido pela Constituição Brasileira, ao cidadão, a possibilidade
de, caso deseje, construir poços para captação de água subterrânea,
para sua utilização, desde que obedeça a legislação vigente.
Em
primeiro lugar, gostaríamos de sugerir, que ao contrário do que
afirma em seu site, antes de se abrir um poço, não é necessário
se consultar a NOVA CEDAE, pois, esta função foge as suas atribuições.
Consultem
um geólogo especialista em águas subterrâneas e construção de poços
ou outro profissional com especialização comprovada nesta área.
Este profissional está habilitado legalmente pelo CREA-RJ – Conselho
Regional de Engenharia, Agronomia e Arquitetura do Rio de Janeiro,
para prestar as orientações necessárias para este fim.
A
ABAS-RJ poderá auxiliar aos interessados neste assunto a encontrar
um profissional em seus quadros.
Esta
consulta também pode ser feita diretamente ao setor de outorgas
do INEA – Instituto Estadual do Ambiente, único órgão responsável
pela concessão de autorizações de projetos para construção de poços
À
título de esclarecimento, a construção de poços é uma obra de engenharia,
constituída de projeto que contempla todo o conhecimento hidrogeológico
do subsolo, através de: sondagem geológica, estudos ambientais,
ensaios de bombeamento, análises físico-química e bacteriológica
da água, entre outros estudos que irão viabilizar a sua utilização
dentro da legislação vigente, com o aval do órgão ambiental estadual,
o INEA.
Portanto,
a construção de poços feitos e operados de acordo com as normas
técnicas, não impacta o meio ambiente e muito menos coloca a saúde
da população em risco, servindo como fonte alternativa de abastecimento
e até como forma complementar ao abastecimento da concessionária
pública de água, em caso de um interrompimento em seu fornecimento.
Quando
a NOVA CEDAE generaliza qualquer tipo de poço, ela está prejudicando
todos aqueles que desejam construí-los de forma correta.
Para
conhecimento da população, a própria NOVA CEDAE possui inúmeros
poços que abastecem diversas comunidades no Estado do Rio de Janeiro,
e que diversos deles operam irregularmente, pois, não cumprem as
exigências legais previstas na legislação vigente do Estado do Rio
de Janeiro.
Esperamos
que com esses esclarecimentos, a ABAS-RJ venha estar contribuindo
de forma adequada para as boas práticas éticas, ambientais e legais,
quanto à utilização dos recursos hídricos subterrâneos.
DIRETORIA
ABAS-RJ ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ÁGUAS SUBTERRÂNEAS NÚCLEO RIO DE
JANEIRO
Cada centavo investido
em avaliação de áreas contaminadas, economiza um real com remediação
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Everton de Oliveira é Geólogo, Coordenador do I
CIMAS, Secretário Executivo e ex-presidente da Associação
Brasileira de Águas Subterrâneas (ABAS) |
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Quem
nunca teve a necessidade de utilizar serviços de saúde para si ou
para alguém querido? Em situações mais desesperadoras, tudo o que
se procura é um excelente médico, que nos tire as dúvidas sobre
qual a origem da doença. Eventualmente, até mesmo recorrer a uma
segunda opinião para dirimir as incertezas. Tudo porque são realizadas
interpretações sobre algo que não se vê diretamente, que se encontra
no interior do corpo humano. E um bom médico baseará sua decisão
em exames rigorosos. Sua experiência e conhecimento são fundamentais
para a interpretação dos resultados, mas os exames fornecem subsídios
necessários para que a decisão seja a acertada.
Se
encararmos uma contaminação subterrânea como uma doença do meio
ambiente subterrâneo e, por extensão, do meio ambiente como um todo,
sua cura, ou mais propriamente, sua remediação, dependerá de um
bom diagnóstico. Diferentemente do corpo humano, a crosta terrestre
varia muito de local para local, apresentando possibilidades muito
amplas para a interpretação da doença ou contaminação. É imprescindível
que se compreenda, ao máximo, o que ocorre naquela fração do meio
ambiente subterrâneo para que se faça um diagnóstico preciso e se
oriente a ação mais efetiva. Como os valores envolvidos em uma avaliação
adequada são elevados, estes tendem a ser minimizados e, na ansiedade
de se remover a contaminação da forma mais rápida e barata possível,
parte-se imediatamente para a remediação. Seria semelhante a partir
para uma ação cirúrgica diretamente, sem os exames adequados. Exceto
em casos onde o diagnóstico é evidente, esta é uma decisão temerária.
Entretanto, isto não é tão evidente quando se trabalha com o meio
ambiente subterrâneo.
Os
contaminantes tendem a seguir caminhos preferenciais quando em subsuperfície.
E estes caminhos não são visíveis, como tudo o mais em meio ambiente
subterrâneo. Sua determinação e, por conseguinte, a definição da
remediação adequada, necessita de muitos ensaios e coleta de informações.
Os valores envolvidos na remediação são geralmente elevados e podem
variar de R$ 100.000,00 a R$ 2.000.000,00, dependendo da situação.
Quando mal empregados, os trabalhos devem ser revistos e refeitos.
Vale a máxima de quem gasta mal gasta duas vezes. Ou mais vezes.
Técnicas
sofisticadas de avaliação estão aparecendo constantemente, acompanhando
a evolução tecnológica. Metodologias de amostragem contínua, análises
no próprio local (in-situ), coletas de solo ou água subterrânea
específicas para cada tipo de contaminação, softwares para interpretação
e modelagem, enfim, uma grande quantidade de ferramentas encontra-se
disponível para uma avaliação adequada. Cada centavo investido em
avaliação corresponde a um real economizado em remediação.
Todas
estas técnicas, embora sofisticadas, serão abordadas no I Congresso
Internacional de Meio Ambiente Subterrâneo (I CIMAS), que será realizado
de 15 a 18 de setembro, em São Paulo (www.abas.org.br\cimas). O
evento reunirá os nomes mais importantes do mundo desta área do
conhecimento, além dos profissionais e consumidores de produtos
relativos à avaliação e remediação de locais contaminados.
Investir
em avaliação do seu local contaminado é economizar muito em remediação.
Vale o investimento.
Água Subterrânea, Lei
de Saneamento e Monopólios
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Amilcar Pereira da Silva Júnior
- Geólogo-Especialista em Recursos Hídricos - Membro
da Diretoria da ABAS-Núcleo RJ
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Em artigo onde aborda
a questão da água subterrânea face à Lei Federal nº 11.445/2007
(Lei de Saneamento), claramente favorável ao monopólio público e/ou
privado, contrariando a livre concorrência, Amilcar Pereira da Silva
Júnior, Geólogo-Especialista em Recursos Hídricos e Membro da Diretoria
da ABAS-Núcleo RJ, é taxativo:
“Infelizmente, este recurso natural de fontes subterrâneas, disponível
e garantido, constitucionalmente, a todos os brasileiros, passe
a ser exclusivo do monopólio estadual e/ou privado, como estabelecido
pela Lei nº 11.445/2007, sendo mal utilizado, ou o que é pior, relegado
a segundo plano pelas empresas de abastecimento e saneamento, como
ocorre, por exemplo, no Estado do Rio de Janeiro”.
Menciona ainda que “após dez anos de consolidação da Lei 9.433/97,
que instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos, a qual contribuiu,
com sucesso, para a utilização de mananciais, tanto superficiais
quanto subterrâneos, de forma segura e ambientalmente sustentável”.
Finaliza, diante do exposto: “Apelo para que nossas representações
políticas discutam, de forma mais ampla, o conteúdo da Lei nº 11.445/2007,
suas implicações para a correta destinação dos recursos públicos,
como também para a promoção das diversas fontes alternativas de
captação, tratamento e abastecimento de água para a sociedade brasileira,
em consonância com os preceitos ambientais e de saúde pública, visando
o desenvolvimento integrado e sustentável do país”.
Artigo, na íntegra: saiba
mais
A
era da água
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Everton de Oliveira - Presidente da ABAS – Associação
Brasileira de Águas Subterrâneas para o biênio 2007-2008* |
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Nosso
país deve orientar-se pelo uso da água subterrânea em toda sua potencialidade.
Os estados precisam estar equipados com leis adequadas para a gestão
correta do uso deste recurso, além de se equiparem para sua preservação,
uma vez que o esgoto doméstico é o principal poluente potencial
de nossos aqüíferos e é função do estado de fazer sua coleta.
Água,
hoje em dia, é assunto. Há até conjecturas sobre possíveis guerras
futuras para o acesso à água. Hoje, água é pauta para várias discussões.
E 97% da água disponível para consumo humano no planeta é subterrânea.
Logo, a pauta deverá inexoravelmente caminhar para o entendimento
desta como parte de nosso dia-a-dia. Todos nós vimos um poço um
dia em nossas vidas, mas poucos de nós parou para pensar em como
a água chega ao seu interior, se sua quantidade varia com o passar
do tempo, se a qualidade também varia como passar do tempo.
As
respostas simples para estas questões permitem-nos organizar nossas
ações visando à preservação da água subterrânea e, por extensão,
das águas como um todo. Por serem subterrâneas, esses 97% nos são
praticamente invisíveis, somente aparecendo em nascentes, e lembra
das quando vemos um poço.
Em
primeiro lugar, as águas subterrâneas são armazenadas nos poros
do material geológico que compõe os chamados aqüíferos, cuja etimologia
remete a um material com capacidade de armazenar e transmitir água
em quantidades apreciáveis. As águas de chuva, ao atingirem a superfície
do solo dividem-se em uma parte que escoa superficialmente, indo
alimentar diretamente os rios e lagos, e outra parte que se infiltra,
indo alimentar os aqüíferos. Esse fenômeno chama-se recarga e é
o responsável pela realimentação da água que aparece nos poços e,
em grande parte, das águas que fluem nos rios e drenagens superficiais.
Muitos rios do nordeste do Brasil são alimentados quase que exclusivamente
por água subterrânea. Logo, a quantidade de água de um poço depende
de sua recarga. Longos períodos de estiagem irão corresponder a
uma menor disponibilidade hídrica subterrânea. Por outro lado, a
qualidade da água subterrânea depende, em princípio, da interação
com o material geológico que compõe o aqüífero e de possíveis alterações
causadas pela introdução de compostos estranhos à sua composição:
poluição. Ao contrário de rios e lagos, onde a poluição é imediata,
pois o acesso à água é direto, nos aqüíferos a poluição é muito
mais lenta, pois o fluxo das águas subterrâneas também é lento,
tipicamente variando entre 1 metro por dia a 1 metro por ano. Nos
aqüíferos, a água encontra-se mais abrigada tanto da evaporação
quanto de potencial contaminação. Logo os aqüíferos são mais protegidos,
mas não são imunes a contaminações e devem ser remediados (termo
técnico) quando tiverem sua qualidade alterada. Inúmeras são as
possibilidades de se poluir as águas em geral, e as águas subterrâneas
em particular, mas o elemento poluidor mais onipresente é o esgoto
doméstico.
Como
somos um país ainda mal servido pela coleta de esgotos, este infiltra-se
no solo, indo eventualmente parar nos aqüíferos. Uma fossa nada
mais é do que um sistema de infiltração. Preocupante, não?
Devemos
nos lembrar que o problema água hoje é pauta mais por estarmos sujando
a água que posteriormente iremos utilizar, do que pela sua escassez,
uma vez que a quantidade de água do planeta é praticamente invariável.
Esgoto doméstico é um vilão, sem dúvida.
Nosso
país deve orientar-se claramente pelo uso da água subterrânea em
toda sua potencialidade. Os estados precisam estar equipados com
leis adequadas para permitirem que técnicas corretas de perfuração
de poços, de explotação de quantidades que não superem a capacidade
de reposição de água pela recarga, enfim, de gestão correta do uso
deste recurso, além de se equiparem para sua preservação, uma vez
que o esgoto doméstico é o principal poluente potencial de nossos
aqüíferos e é função do estado de fazer sua coleta.
Água
vai continuar a ser assunto, e as águas subterrâneas virão cada
vez mais à superfície das discussões em torno do uso racional dos
recursos hídricos.
(*)
Presidente da ABAS – Associação Brasileira de Águas Subterrâneas
para o biênio 2007-2008; Geólogo formado pelo Instituto de Geociências
da Universidade de São Paulo, Mestre em Hidrogeologia pelo mesmo
Instituto e Doutor em Hidrogeologia de Contaminação pela Universidade
de Waterloo,Canadá.
O Geólogo e a Hidrogeologia
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Gerson Cardoso da Silva Jr - Geólogo e Hidrogeólogo |
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O
Dia do Geólogo que a ABAS-RJ e outras entidades, como a APG-RJ,
celebraram este ano no Clube de Engenharia, será sempre uma data
tão cara a todos nós por nos conferir um senso de pertinência, por
nos fazer refletir sobre a nossa vida profissional e sobre o papel
da Geologia em nossas vidas – como nosso ganha-pão, pela busca incessante
pelo aperfeiçoamento, a necessidade de bem realizar, os bons e maus
momentos que tivemos os quais, talvez de forma mais evidente que
em outras atividades, estão indissociados de nossa profissão - e
também sobre o papel da Geologia na sociedade como um todo.
Questões como as mudanças climáticas, a previsível futura escassez
de recursos hídricos de boa qualidade, a ameaça de danos devido
a catástrofes naturais e a necessidade do uso e gestão adequados
dos recursos naturais fazem com que a geração do Conhecimento Geológico
seja sem dúvida cada vez mais prioritária, indispensável e urgente.
O papel do Hidrogeólogo
é fundamental em todo esse processo. De um profissional que no passado
tinha sua atuação ligada quase exclusivamente à obtenção de água
subterrânea para abastecimento, o Hidrogeólogo ampliou de tal maneira
seu raio de ação que hoje é requisitado em praticamente todo estudo,
pesquisa ou empreendimento de porte ligado à temática ambiental.
Esse novo status profissional
criou, além de novas oportunidades profissionais e pessoais, uma
enorme responsabilidade, pois levou à necessidade de o Geólogo lidar
com temas muitas vezes pobremente cobertos por seu currículo profissional
básico, como tecnologias de informação, modelagem matemática, microbiologia,
climatologia, etc.
Não podemos nos permitir a cometer os mesmos erros do passado nas
questões ambientais e, em particular, com respeito aos recursos
hídricos. A sociedade espera, portanto, muito de nós, que não temos
alternativa senão buscar o contínuo aperfeiçoamento e aprendizado
para responder adequadamente a esses desafios. E onde vamos buscar
essa fonte de conhecimento, esse diferencial que faz com que haja
essa expectativa depositada sobre nossos ombros?
A resposta, estou cada
vez mais convencido, é uma só: o Conhecimento Geológico, aquele
conjunto de conceitos por vezes pouco relacionados diretamente,
heterogêneo, complexo em sua trama e que faz com que nos identifiquemos
como profissionais, compartilhando de um mesmo tesouro. Portanto,
no Dia do Geólogo, o Hidrogeólogo deve, além de refletir sobre as
suas raízes e confraternizar com os colegas e amigos, usufruir a
alegria de pertencer a essa tribo maravilhosa.
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